Palestrante defende que ampliação da jornada deve transformar a experiência escolar, e secretários de Educação da região destacam desafios enfrentados pelas redes municipais
Transformar o tempo ampliado na escola em uma experiência de aprendizagem significativa, com qualidade e oportunidades para todos, exige mais do que aumentar a jornada dos estudantes. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pela pesquisadora, ex-secretária nacional de Educação Básica do Ministério da Educação e dos Direitos da Criança e do Adolescente no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Maria do Pilar Lacerda, durante a segunda sessão do 7º Fórum Internacional de Educação dos Municípios do Alto Tietê, com o tema ‘Desafios da Educação Integral em Tempo Integral’. O encontro ocorreu na noite dessa quarta-feira (9), de forma online pelo YouTube, para mais de cinco mil profissionais da rede pública da região.
A especialista, que tem ampla experiência na gestão pública educacional, destacou que a educação integral em tempo integral precisa estar baseada em uma proposta curricular integrada, com intencionalidade pedagógica, participação da comunidade escolar, articulação com outros serviços públicos e melhores condições de trabalho para os profissionais da educação. Para ela, um dos principais riscos é reproduzir o modelo tradicional de escola durante parte do dia e acrescentar atividades no período ampliado sem diálogo com o currículo.
“O maior risco do turno e contraturno é que você tenha aquela escola que continua funcionando do mesmo jeito, de sete às onze, que se transforma em atividades muito lúdicas, muito divertidas, muito esportivas, mas que não dialoga com o turno”, destacou a palestrante.
Como caminho, ela defende que o Projeto Político-Pedagógico seja elaborado coletivamente e defina o que a escola entende por educação integral e quais são suas intenções pedagógicas. Na avaliação da palestrante, o currículo integrado deve fazer com que diferentes atividades estejam conectadas aos objetivos de aprendizagem. Pilar citou como exemplo a possibilidade de trabalhar conhecimentos de ciências e química durante uma aula de culinária, mostrando que experiências realizadas em diferentes espaços e momentos podem estar vinculadas ao processo pedagógico.
Outro ponto considerado estrutural pela pesquisadora é a melhoria das condições de trabalho dos docentes, com dedicação exclusiva a uma escola, jornada de 40 horas, estabilidade e tempo destinado à docência, à preparação e aos estudos. A formação dos profissionais também foi apontada por ela como uma questão urgente.
Após a palestra, a discussão contou com a participação de gestores municipais de Educação, que apresentaram experiências e desafios das redes municipais da região. Maria Donizeti de Queluz Camargo, secretária de Educação de Santa Isabel, relatou o processo de implantação da primeira escola de tempo integral do município e a ampliação das matrículas prevista para os próximos anos.
Já Rafael de Souza Carvalho, chefe da pasta em Guarulhos, levou ao debate a preocupação sobre como ampliar a educação integral em grande escala sem perder qualidade, sustentabilidade financeira e sentido pedagógico. Keila Nogueira, secretária adjunta de Educação de Arujá, apresentou a experiência do município na ampliação do atendimento em tempo integral e destacou a necessidade de fazer com que o período ampliado represente uma transformação da experiência, e não apenas mais horas dentro da escola.
O 7º Fórum Internacional de Educação dos Municípios do Alto Tietê é realizado pelas Secretarias de Educação das cidades consorciadas, com coordenação executiva do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada (IBSA) e apoio institucional da Unesco.
Promovido pelo Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê e Região (CONDEMAT+), o fórum terá mais três encontros, nos dias 16, 23 e 30 de setembro, sempre às quartas-feiras, das 19h às 21h. A programação abordará os temas ‘Enfrentamento às Violências na Escola e Contra a Escola’, ‘Relações Étnico-Raciais e Educação Antirracista’ e ‘Desafios para o Futuro da Escola Pública’, com a participação de especialistas e representantes de instituições como Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Conselho Nacional de Educação (CNE).


