Este texto nasceu de relações.
Inicialmente, imaginei dissertar um pouco sobre uma temática já muito abordada no meio político: as grandes redes de fast food e seus funcionários, por conta de uma relação breve que presenciei em um destes restaurantes enquanto também me relacionava (não politicamente) com outros colegas. Levemente caçoado por aqueles que me acompanhavam por conta de uma tentativa falha (ou inoportuna) de uma entrevista, me pus em uma relação conflituosa, agora com a temática que havia escolhido para este texto.
Porém, acidentalmente no mesmo momento, me vi imerso em uma reflexão interna sobre o que é um relacionamento. Claro, há definições concretas e amplamente aceitas por toda a parte: psicologia, sociologia, pedagogia, administração, política e tantas outras áreas trazem suas interpretações já sólidas sobre o que define uma relação, dentro de seu próprio viés epistemológico, onde brigam entre si buscando uma regra “dura”, uma lei geral, uma definição do que é uma relação.
Realisticamente, a vida social consolida nossas relações de maneira mista.
A Belle Époque, em sua instância, representou tudo aquilo que se reprimiu no período que a antecedeu: o romantismo, o amor, a paixão, a intensidade, a intersecção entre culturas e interações são o que consolidam o real significado de uma relação! Toda a violência física da grande guerra agora se consolida nesta bela e nova humanidade, que agora domina e explora o continente africano, forma superestruturas racistas, paternalistas, imperialistas e patriarcais, que se reforçam neste lindo período de paz e paixão, precedente da nova grande guerra.
Ou então, devemos nos ater mais firmemente àquilo que a tradição nos fala: A família! Já ilustrado por Aristóteles, em A Política, evidentemente devemos entender como o real relacionamento aqueles que temos com os tios, avós, bisavós, mães, pais e irmãos, primos e primas e todos aqueles parentes que não sabemos nada além de seus sobrenomes, e antipaticamente no relacionamos nas raras ocasiões socialmente necessárias, sempre torcendo para nos recluir para nossas outras relações.
O mundo do cinema nos conta por meio de Amélie que é essencial fortalecer nossas relações banais do dia-a-dia! O casual assediador no ambiente de trabalho, a hipocondríaca que nos serve no bar, quitandeiro na esquina – sutilmente capacitista, ou até o vizinho senil e misterioso que não nos recebeu no dia da mudança são os que devemos investir nosso tempo e energia fortalecendo vínculos.
Talvez, por fim, os grandes federalistas como Hamilton e Madison acertaram em suas análises! As relações reais são as das instituições! Os estados, as federações, os países e as províncias são como nos relacionamos no mais alto nível! Os embargos, as notícias falsas, as ditaduras importadas e as guerras são o suprassumo das relações humanas e políticas!
No meio de meu transe, sou puxado de volta à realidade em mais umas das brincadeiras que meus colegas recitam por conta da situação agora já no passado, desconstruindo e construindo relações entre si, entre nós, entre os fast foods – entre o mundo e a política. É neste momento que percebo o quão ingênuo fui em tentar solidificar, compreender, definir, traçar uma lei geral para o que define esse axioma humano.
A hipocrisia da vida política é a mesma que aquela da vida privada – nossa necessidade inerte de ver a si mesmo no outro, e o outro em ti. Somos seres políticos, vivemos e respiramos política. Devemos viver a vida pública e a vida privada sem nos abster do direito de deliberar! Constituímos a política por nossas relações, e as destruímos por meio dela. Somos livres, acima de qualquer determinação social ou econômica, para nos relacionar! A Belle Époque, a família, Amélie e Hamilton viram em seus dias de reinado no mundo da vida política relações não tão obstantes do que vemos hoje.
Assim, somos apenas a amalgamação daquilo que não somos, com aquilo que desejamos ser. Somos conflito e somos concordância, divergência e convergência em espaços que nunca nos pertencem, mas que começam a pertencer. E no meio de tantas dualidades, não devemos nos permitir perder a nossa capacidade de exercer a única coisa que nos resta por concreto: a relação.
E assim, este texto se finaliza tal como nasceu: em novas relações.


