Olá, qual é o seu nome?
Talvez essa seja uma das primeiras perguntas que fazemos quando vamos conhecer alguém ou alguma coisa. Os nomes carregam consigo uma infinidade de signos e significados, afinal, essa é a sua proposta desde a concepção. Mas, falando a respeito da “favela”, de onde veio esse nome e o que ele significa? Para responder a essa pergunta, precisamos voltar no tempo.
Após a Guerra de Canudos, os soldados combatentes desembarcaram na capital do Brasil da época, o Rio de Janeiro, com a promessa de que teriam um local para morar. Porém, com a recente “libertação” dos antigos escravizados, o Rio de Janeiro estava repleto de pessoas necessitadas de um lar, o que tornava a cidade cada vez mais cheia de cortiços – mansões que outrora eram mantidas pelo trabalho forçado da escravidão, mas que, sem essa mão de obra exploratória, tornaram-se insustentáveis. Até mesmo os soldados que lutaram em Canudos foram parar nesses cortiços.
Talvez o cortiço mais famoso tenha sido o Cortiço Cabeça de Porco, que, além de gigantesco, chegou a abrigar mais de quatro mil habitações em seu auge. O prefeito da época, o excelentíssimo senhor Cândido Barata Ribeiro, ordenou a demolição do cortiço por dois motivos. O primeiro foi a construção de um túnel que passaria exatamente por aquele local – coincidência, né? Mas o que talvez tenha sido o real motivo é que, na época, os cortiços eram vistos como um problema de saúde pública. Em vez de implementar políticas eficientes para resolver a questão, a solução encontrada foi simplesmente expulsar milhares de pessoas de suas casas, como se isso resolvesse o problema.
Sem um local para morar, uma grande parte dessas famílias reassentou-se na parte baixa do atual Morro da Providência, que viria a se tornar a primeira favela do Brasil. No entanto, ainda não existia o conceito moderno de favela, e o próprio Morro da Providência ainda não tinha esse nome. O que aconteceu foi que, no Nordeste, de onde vieram muitos dos combatentes de Canudos, existia uma planta popularmente conhecida como favela ou faveleira, que era comum na paisagem e fazia parte do cotidiano desses soldados.
Talvez por nostalgia, alento ou saudade de sua terra natal, ao se acomodarem no morro, eles o apelidaram de Morro da Favela. A partir desse momento, o termo começou a ganhar os traços modernos que conhecemos hoje. Infelizmente, ao longo do século XX, o nome “favela” passou a ser associado a diversas mazelas sociais, sem que houvesse espaço para revelar sua verdadeira potência e resistência. Algumas tentativas foram feitas para mudar o nome favela para termos como comunidades, aglomerados subnormais ou até mesmo periferias, sem que se levasse em conta que esses conceitos são distintos.
Mas, assim como toda boa favela e seus favelados, o termo segue resiliente e potente, provando a cada dia que a favela é única e que não vai mudar seu nome tampouco suas características. Já com relação as distinções entre os termos é tema para o nosso próximo encontro!


