Peça ao Paulistano narrar seu dia, e encontrará um discurso comum entre todos. Sai a caminho do trabalho, em sua maioria na capital, ainda meio sonolento. Salta o ocasional morador de rua em seu trajeto, ignora o pedinte do farol, e não permite se preocupar com os diversos alertas sobre as tempestades na cidade, ocasionalmente se incomodando com o atraso do transporte público superlotado, observando a paisagem urbana, buscando identificar se as cores laranja e vermelho que vê na distância representam um McDonalds, Burger King ou OXXO.
Recentemente, também vivendo o dia paulistano, saí do vagão do Metrô em meu retorno para casa, aliviado por ter chegado na estação, já esquecendo todos que fizeram o trajeto junto de mim. Imediatamente, me deparo com um grupo de pessoas ao redor da escada rolante, cena curiosa para São Paulo, onde nos orgulhamos exatamente por nossa individualidade, ironicamente, igual.
Na distância, em meio à multidão, vejo um tênis, e penso imediatamente “Eu tenho esse mesmo tênis!”, sem nem mesmo assimilar os motivos da aglomeração peculiar, imaginando qual a probabilidade de alguém usar o mesmo modelo que o meu, ignorando o quão comum deve realmente ser um paulistano escolher o mesmo calçado que escolhi. Me aproximo então, seguindo o meu trajeto e tentando não dar minha atenção para a cena, mas claramente curioso pelo acontecido. Assim que as escadas se revelam, vejo um cenário estupefaciente, com um jovem ferido por um tiro, em seus últimos suspiros de vida, buscando por ar, sem nenhum socorro da multidão, estirado no chão e usando o mesmo tênis que o meu.
Perplexo, me situo do acontecido, e começo a observar aqueles em meus arredores, e ouço “Foram eles! Aqueles dois que deram o tiro!”, vindo de uma jovem moça do outro lado do grupo. Tento me afastar, mas congelado por conta da vida, tão similar a minha, esvaindo em minha frente, não consigo. Tento contato com os serviços de emergência, mas sem sinal, também não tenho sucesso.
Voltando aos meus sentidos, e vendo como o jovem se afoga em si mesmo sem a ajuda da multidão, penso comigo em iniciar socorros, mas os autores da violência se aproximam, portanto, fujo com receio de algo se repetir, agora com outros, ou, comigo.
Na saída da estação, com o passo apressado começo a digerir o que presenciei, e me apavorar com tudo o que se deu ao meu redor. Todo aquele coletivo ao redor do jovem não se mobilizou de nenhuma maneira para auxiliá-lo, penso “como podemos ser tão individuais?”. Imediatamente, assusto-me comigo mesmo, lembrando como também não agi em prol da vida ceifada à minha frente. A situação que vi começa a se materializar, tomando a forma da violência que realmente é, tanto daquele que tirou a vida de outro, quanto dos outros que não tentaram salvá-la.
Naturalmente, chego em minha casa, ainda silenciado por tudo que vi, mas inicio minha rotina ao final do dia. Começo a pensar sobre o dia de amanhã, me vendo retornar aos pensamentos do dia a dia. Lembro dos McDonald’s, BurgerKing’s e OXXO’s em meu trajeto, nos atrasos do Metrô que enfrentarei, nos diversos alertas sobre as tempestades na cidade, e as pessoas que casualmente ignorarei enquanto me desloco para trabalhar. E num instante, me vejo de volta na individualidade coletiva da metrópole paulista, ignorando também aquele homem que presenciei a morte, que também ignorava casualmente a realidade ao seu redor.


